terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Relações médico-paciente

  Após discutir os aspectos gerais da síndrome metabólica sob vários ângulos (o que é a síndrome, como ela surgiu, como tratar, entre outros) e ver um pouco do papel do SUS na saúde brasileira, o blog será finalizado hoje com um assunto que foi levantado inúmeras vezes ao longo das postagens: a situação das relações médico-paciente na sociedade atual.
  Atualmente, a medicina passa por um processo de racionalização científica, baseada numa mensuração objetiva e quantitativa, bem como, na visão dualista mente-corpo. Esse modelo subestima a dimensão psicológica, social e cultural da relação saúde-doença, com os significados que a doença assume para o paciente e seus familiares. Os médicos e pacientes, mesmo pertencendo à mesma cultura, interpretam a relação saúde-doença de formas diferentes. Além dos aspectos culturais
deve-se enfatizar que eles (médicos e pacientes) não se colocam no mesmo plano: trata-se de uma relação assimétrica em que o médico detém um corpo de conhecimentos do qual o paciente geralmente é excluído. 
  Para ilustrar isso, relata-se um encontro, realizado em 1994, que teve como foco da discussão a relação médico-paciente e suas dificuldades, concluindo-se com uma declaração de consenso conhecida internacionalmente como Toronto Consensus Statement. Entre os dados apresentados podemos destacar que 54% dos distúrbios percebidos pelos pacientes não são tomados em consideração pelos médicos durante as consultas, bem como 50% dos problemas psiquiátricos e psicossociais não são considerados. Em 50% das consultas, médicos e pacientes não concordam sobre a natureza do problema principal, e 65% dos pacientes são interrompidos pelos médicos depois de 15 segundos de explicação do problema. 
  Com base nos dados apresentados, percebe-se que a falta de uma relação benéfica médico-paciente é frequente. A partir daí, muitos problemas podem surgir: o tempo das consultas médicas são reduzidas, os médicos não ouvem os pacientes, os pacientes tem dúvidas sobre o médico e não cooperam com o diagnóstico/tratamento, o médico não consegue lidar com a diversidade de culturas dos pacientes. 
 Para mudar essa realidade, pode-se abordar a formação médica: nos cursos tradicionais para médicos e enfermeiros, os estudantes adquirem uma série de conteúdos e capacidades práticas que levam a considerarem somente os aspectos físicos, excluindo as características culturais e socioeconômicas. Segundo Anne Scott (1998), durante a formação os estudantes adquirem a consciência do que deve ser ignorado, excluído, reforçando a lógica biomédica. Na realidade, o conto do paciente muitas vezes não contém somente elementos de história da doença, mas também elementos de história social. Há algumas décadas, nas universidades européias e norte-americanas estão sendo desenvolvidos cursos sobre o tema da relação médico-paciente. Quase todos esses cursos têm uma característica comum: a duração acompanha todo o processo de formação do estudante desde os primeiros até os últimos anos.
  Sendo assim, por que não começar a implementar, de maneira efetiva, esses cursos no Brasil, a exemplo do que já é feito em países estrangeiros? Como vimos na postagem anterior, o modelo do SUS traz essa ideia de estabelecimento de vínculos, mas será que levar essa atitude apenas para o SUS é suficiente? Não seria ainda melhor passar a visão mais humana da medicina desde a formação médica?

Com essas reflexões, encerra-se o blog. Espero que os leitores tenham aprendido bastante sobre a síndrome metabólica desde as suas bases bioquímicas até o contexto da síndrome na sociedade. Dúvidas podem ser colocadas nos comentários. Até o próximo blog (?).

Fonte: http://www.scielosp.org/pdf/csc/v9n1/19831.pdf